Domingo, 10 de Junho de 2007

À procura da cidadania

 

 

 

            Por volta dos anos 55/56 o preço do café atinge preços elevados; a economia floresce e os indígenas, ao vender o seu café nas povoações comerciais regressam a casa com bens de consumo que nunca pensaram adquirir. Os quimonos e as tangas dão lugar aos vestidos, os panos que envolvem os mais velhos são, em parte, substituídos por calções e roupa dos soldados americanos e ingleses, desde simples blusões de soldados a casacos de oficiais e, às vezes até de generais. Estas fardas vinham da América em fardos de cem peças e eram vendidas muito baratas. Até os brancos as vestiam, principalmente os blusões de cor esverdeada dos soldados ingleses. Os tachos de alumínio substituíam os tachos e panelas de barro. Também aqui e ali os quedes de borracha  protegem os pés descalços, e já se vêm bicicletas, máquinas de costura Singer, milongas (remédios), brincos e missangas. Tudo o que seja novo se vende. Há um grande desejo de avançar, de criar uma vivência mais confortável. Até a língua portuguesa começa a sobrepor-se ao Quimbundo; já não há miúdo nenhum que não fale a nossa língua, ou porque nas missões o seu ensino é agora mais intenso, ou porque o relacionamento com os comerciantes é cada vez mais forte. 

            Alguns indígenas, já produtores de grandes quantidades de café, começam a manifestar o desejo de adquirir o direito à cidadania portuguesa e fugir ao estatuto do indigenato que era, ainda, uma reminiscência da velha escravatura.

 

            A aquisição da cidadania era formalizada com a posse do Alvará de Assimilação. Enquanto os brancos, para obterem o Bilhete de Identidade, apenas precisavam duma certidão de nascimento, duas fotografias e uns dias de espera, para os negros era um nunca mais acabar de exigências:

  

-          Tinham que ser católicos (quando nesta região os povos eram quase todos protestantes);

 

-          Só podiam ter uma mulher;

 

-          Deviam possuir uma casa com cobertura de zinco ou alumínio.

 

-          Tinham que falar português.

  

            Eram as condições que as autoridades administrativas impunham e que podiam ser certificadas por comerciantes. Ainda certifiquei uma meia dúzia de casos, pelo conhecimento pessoal que tinha das pessoas, pois, tirando a questão religiosa, tudo o resto era verdadeiro.

  

            Mas, como no passado, desde o reino à república, as leis são aprovadas em Lisboa, mas os governos coloniais das províncias não só não as cumprem como não as mandam cumprir, perpetuando uma escravatura, onde os direitos são só aqueles que cada autoridade administrativa, segundo a sua bondade, permite. O abuso é tal que qualquer branco se julga no direito de fazer justiça por conta própria.

  

            Vem tudo isto a propósito do Alvará de Assimilação. Certificada a pretensão era entregue na Administração ou no Posto Administrativo; Em qualquer dos dois lados o destino era o mesmo – o cesto dos papeis. Fartos de esperar acabam por desistir, pois a resposta era sempre a mesma:

  

-          Ainda não há nada!

  

            Alguns, entretanto, vão tentar a sorte a Luanda e, possivelmente a troco de uns angolares, lá arranjam o tão desejado alvará. Quando voltam às suas terras, orgulhosos porque finalmente são homens com direitos, vão, como tal, apresentar- se às autoridades exibindo o símbolo do sonho agora realizado. O Chefe do Posto analisa o alvará e vê que foi tirado em Luanda. Sendo ele natural deste posto não podia ser emitido sem prévia informação da autoridade local. O Chefe do Posto (1) chama o cipaio e manda dar uma carga de porrada e vinte palmatoadas em cada mão dizendo:

  

-Aqui quem manda sou eu e, enquanto for autoridade, nenhum filho da puta de preto queira ser português como eu!

 

publicado por Quimbanze às 23:40

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