Terça-feira, 26 de Junho de 2007

DIA 15

 O Tavares toca a sineta ( a mola contra o semi-eixo) e quando saio de casa já só o vejo ir com o pessoal a caminho da plantação. Sou então surpreendido com um espectáculo terrível. Junto à cozinha, subindo já pela parede da casa, milhões e milhões de formigas quissondo avançam continuamente pela parede. Formam um rolo ondulante que devora tudo à sua passagem. Tento destruí-las mas logo desisto, pois quantas mais mato mais aparecem. Digo ao Augusto para ir à cerâmica, na carrinha, buscar o maçarico para tentar queimá-las. Entretanto arranjo uns trapos velhos envolvidos em gasóleo a arder na ponta de um pau e lá as vou queimando. Com a chegada do Augusto conseguimos, com o fogo, dar cabo das formigas assassinas, que em pouco tempo devoram qualquer animal. A Alíne e os miúdos andam de volta das galinhas, dos pintos e dos pombos a catar as formigas que já tinham atacado o galinheiro.

 

            Da casa avistamos a estrada que, vinda do Uíge(2) ou do Quitexe, dá acesso à fazenda continuando depois para S. José do Encoje e Ambuíla, percorrendo dezenas e dezenas de quilómetros entre a serra do Cananga, de um lado, e as serras do Quimbinda e do Mongage do outro. Vimos, então, um jipe que parece vir apressado. Virá para aqui ou seguirá para as fazendas mais afastadas? Afinal vinha para aqui. Quem seria? Era o Chefe do Posto Nascimento Rodrigues ao volante. No banco traseiro o Abílio Guerra e o Jaime Rei. Eram afinal os três membros da Junta Local. Muito preocupados, o Chefe do Posto chamou-me de lado e disse-me que de noite tinha havido sarilho na fazenda do Zalala e que o gerente tinha conseguido fugir e ir para o Uíge chamar a tropa e que constava que muitos pretos haviam fugido da fazenda. Se entretanto aparecessem por aqui devia prendê-los. – “Chefe, eu prendê-los como?”A resposta foi dizerem-me que iam ver o que se estava a passar nas fazendas e que depois voltavam a passar por cá. Lá partiram e eu desloquei-me para o Quitexe passando pela sanzala Talambanza onde iria buscar o carpinteiro Jorge Panzo. A sanzala, que ficava no cruzamento da estrada para o Uíge com a da fazenda, estava deserta. Nem Jorge, nem meio Jorge! Mas um capita vem apressado dizer-me:

 

-          Não vá para o Quitexe pois há por lá muitos mortos! O Dr. “Talambaza” (Almeida Santos) acaba de passar para tentar chegar ao Uíge e trazer a polícia!

 

De imediato dou meia volta ao jipe e corro a grande velocidade para casa passando pela fazenda do Armindo Lenita onde ele, a mulher e os dois filhos podem correr perigo. Chegado à fazenda chamo a Aline e digo-lhe para preparar cobertores pois podemos ter necessidade de fugir para a mata.

 

Chamo o cozinheiro do pessoal e entrego-lhe um bilhete para levar rapidamente ao Tavares. Sem pormenores, escrevo-lhe a dizer para deixar o pessoal e vir imediatamente. Chamo também o Augusto para ir à Cerâmica e trazer o Alcindo:

 

–        Que deixe tudo e venha já!

 

De volta o Chefe do Posto, o Abílio Guerra e o Jaime Rei vêm horrorizados dizendo que há mortos nas fazendas. Eu tenho que lhes dizer que no Quitexe também há mortos; os três tinham lá deixado as mulheres e os filhos e lá partiram, como loucos, sem saberem o que iriam encontrar.

 

As mulheres e os miúdos estão reunidos em minha casa. Entretanto chega uma carrinha com o guarda-fiscal mais um soldado, armados de metralhadoras. Vêm para nos buscar rapidamente. Disse-lhe que não abandonava a fazenda enquanto os meus empregados, o Alcindo e o Tavares não chegassem. Ele estava com pressa e partiu.

 

Agora é o Antunes, o homem do talho, que aparece com a Dona Alice e os dois filhos a abrigar-se na fazenda. Entretanto o Alcindo e o Tavares chegaram e era a altura de decidirmos o que fazer... O Tavares manda chamar os cozinheiros e damos-lhes ordens para que todo o pessoal regresse ao acampamento. Foi-lhes entregue a ração para três dias: fuba, peixe seco, óleo de palma e feijão. Ninguém ia trabalhar e ficavam de guarda à fazenda. Nós tínhamos resolvido aproximarmo-nos do Quitexe parando na fazenda do Armindo Lenita. De lá avistávamos a estrada que liga o Uíge ao Quitexe. Dentro de pouco tempo vimos que dois carros circulavam no sentido do Quitexe que ficava a uns três quilómetros. Resolvemos avançar, também, e entrar na povoação onde alguns cadáveres estavam ainda na berma das ruas. Tento desviar o olhar dos miúdos da tragédia, mas não o consegui totalmente pois na noite seguinte a minha Adrianita, com sete anos não conseguia dormir, recordando a visão dos mortos e, muito agarrada à Mãe, perguntando o que se estava a passar.

Ao Quitexe começam a afluir as mulheres e crianças brancas de todas as fazendas. Ninguém sabe se será seguro permanecerem lá sozinhas ou, sequer, como vai evoluir a situação. Na parte da tarde vem uma camioneta do Uíge para evacuar as mulheres e crianças para o hotel do Uíge. Mas consta que esta cidade será atacada por milhares de pretos nessa noite (de 15 para 16). Decido que o meu dever acima de tudo é defender a família e deixo o Quitexe rumo ao Uíge. Os rumores do ataque da UPA são cada vez mais persistentes. As ruas estão desertas e na rua principal apenas um civil, que deve ser da Pide, patrulha, rua abaixo, rua acima, com uma pistola-metralhadora e cartucheiras cheias de balas. No hotel a confusão e ansiedade  pelo que pode acontecer é grande. Não há ninguém para defender o hotel. Um redactor do Jornal do Uíge, lá hospedado, apercebe-se do drama e telefona para o quartel da tropa relatando a situação em que se encontravam dezenas e  dezenas de mulheres e crianças, totalmente desamparadas e sem protecção. A resposta foi pronta:

 

-       Desenrasquem-se como puderem pois em caso de ataque nem tenho tropa suficiente para defender o paiol!

Eu tinha comigo uma pistola 365 com 10 balas; eu que na minha vida só tinha disparado ao alvo armas de pressão de ar! E se fosse preciso abrir fogo?...

A situação era aflitiva pois os homens tinham ficado no Quitexe. Esgotada a possibilidade de defesa, vou à loja do Ferreira Lima buscar uma dezena de catanas que distribuo pelos quartos. Com os poucos homens organiza-se uma defesa simbólica com duas pistolitas e duas catanas. Três pessoas ficam na porta principal. Eu fui para as traseiras defender a porta de acesso às instalações. A noite vai avançando. Atacarão, não atacarão? O silêncio é aterrador. Vão chegando informações contraditórias: já estão a atacar! Já há mortos! Serão boatos? A avenida está silenciosa, apenas o pide continua a andar para cima e para baixo. Agora chega a informação que o ataque vai começar à meia-noite. Cresce a ansiedade. Nada é dito para os quartos, agora fechados, onde as mulheres, em caso de ataque apenas têm as catanas para se defenderem. A meia-noite aproxima-se e então começo a ver e ouvir vultos que se aproximam, subindo a rua das traseiras do hotel.

 

–        MATA! MATA! UPA! UPA!

Do lugar onde estou vejo passar a turba, mas não há nenhum sinal de quererem atacar o hotel. Também já passaram junto ao quartel da Polícia e do Palácio do Governador e só se ouve o – MATA! MATA! UPA! UPA! Não há tiros. Só mais tarde para os lados do Bairro Montanha Pinto começa grande tiroteio que vai diminuindo conforme a noite avança. Corre a notícia de que, afinal, as grandes sanzalas em redor do Uíge não colaboraram no ataque. O grupo que avançou era o que havia passado nas traseiras do hotel e foi disperso.

 

 

 

publicado por Quimbanze às 21:42

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