Terça-feira, 5 de Junho de 2007

Ao encontro da tragédia

É neste correr do dia a dia que numa das minhas idas ao Quitexe encontro o Chefe do Posto Nascimento Rodrigues que diz precisar de falar comigo, confidencialmente. Combinámos almoçar no  domingo seguinte na minha fazenda. Digo-lhe para também  levar a mulher (Raquel) e os filhos.

 Assim foi e, assim, tomei conhecimento da confidência. Ele, Chefe do Posto, tinha sido alertado pela PIDE que estavam a ser distribuídos panfletos subversivos nas sanzalas para os lados do Zalala e que esses panfletos eram de uma organização política designada por U.P.A. que significava União dos Povos de Angola. Fiquei surpreendido, pois nunca tinha ouvido tal designação. O Chefe esclareceu que estava a contactar todos os fazendeiros para colaborarem com a Pide dando-lhe todas as informações  que fossem colhendo. Respondi-lhe que de tudo que eu viesse a saber lhe daria conhecimento a ele e não à Pide, visto ser organização que sempre repudiei. Esta conversa teve lugar no dia 5 de Março de 61.

 Entretanto as férias escolares haviam começado e, por isso, não era necessário levar os miúdos ao Quitexe.

 No dia 10, escrevo uma carta à Tia Marquinhas, carta essa que mais tarde recuperei e que agora transcrevo: 

 

(...) Desculpe a Tia o só hoje dar notícias mas como deve calcular estas vidas, primeiro a baixa do café que atingiu um preço que pôs toda esta região à (beira da) falência e agora surge o inevitável problema político, para o qual os governantes resolveram solucioná-lo pela força. Seremos nós, os do interior, homens, mulheres e crianças as principais vítimas, pois além de nos encontrarmos indefesos, por mil e uma razões não podemos abandonar esta boa mas também maldita terra. Em Luanda parece que os encontros têm sido renhidos e que já houve centenas de mortes, mas mesmo lá, por enquanto, parece que os ataques são só dirigidos contra a polícia e o exército e que das forças revoltadas fazem parte brancos. Seria uma sorte pois, se vamos para a questão racial será uma desgraça, pois será o caso de mata que é branco e mata que é preto. Mas parece-me  que não teremos sorte pois esses cavalheiros daí para salvarem a pele não hesitarão em nos sacrificarem. (...)

  

Relendo agora a carta, quase me surpreendo com a clarividência com que expus a situação política vivida em Angola,  bem como o alerta premonitório para o que se passaria cinco dias depois.

 No dia treze o Alcindo, na cerâmica, dá ordem aos forneiros para começar a cozedura do tijolo e, a partir daí, durante três dias e três noites as três bocas do forno vão engolindo e queimando as muitas carradas de lenha que hão-de levar ao rubro os tijolos. Nesta altura, é dada por concluída a cozedura, seguindo-se depois o arrefecimento do forno e a desenforma.

publicado por Quimbanze às 22:07

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